
A interdependência global, a guerra assimétrica e a inteligência artificial criaram novos mecanismos de contenção em favor da paz
Em outubro de 1962, a Crise dos Mísseis de Cuba mostrou a John Kennedy e Nikita Khruschov que uma guerra nuclear poderia produzir o desaparecimento simultâneo dos dois lados. A velha lógica da dissuasão nasceu desse pavor administrado. Em 2026, o medo continua funcionando como freio, mas seus instrumentos deixaram de caber apenas nos silos nucleares.
A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Três anos depois, Moscou não conquistou Kiev, não derrubou o governo ucraniano e não obteve a vitória rápida esperada no início da operação. Do outro lado, os Estados Unidos e seus aliados destinaram centenas de bilhões de dólares a Kiev. O Instituto Kiel, que acompanha a ajuda internacional à Ucrânia desde janeiro de 2022, calcula que o apoio direto americano já chegou a cerca de US$ 127 bilhões, enquanto Europa e Estados Unidos somaram mais de € 240 bilhões nos três primeiros anos da guerra.
A guerra deixou de ser medida apenas pelo tamanho dos exércitos. O orçamento militar dos Estados Unidos ultrapassa US$ 900 bilhões anuais, segundo os levantamentos do SIPRI sobre despesas militares globais. Ainda assim, Washington não conseguiu converter superioridade bélica em solução política rápida nem na Ucrânia nem no Oriente Médio. A Rússia, segunda potência nuclear do planeta, também descobriu que tanques, artilharia e mísseis não bastam para vencer um país menor, motivado, apoiado externamente e capaz de utilizar drones de baixo custo com enorme eficiência.
Essa mudança aparece em cada frente de combate. Drones comerciais adaptados destruíram blindados avaliados em milhões de dólares. Ataques cibernéticos passaram a atingir bancos, hospitais, redes elétricas e bases de dados governamentais. Operações de desinformação interferem no ambiente político antes mesmo do primeiro disparo. A assimetria deixou de ser detalhe tático. Virou método de guerra.
A rivalidade entre Estados Unidos e China organiza boa parte da tensão global. Washington restringiu exportações de semicondutores avançados. Pequim acelerou planos de autossuficiência tecnológica. Mesmo assim, uma ruptura completa teria custo brutal para os dois lados.
A inteligência artificial acrescentou nova camada à disputa. O Stanford AI Index registrou US$ 109,1 bilhões em investimento privado americano em IA em 2024, quase 12 vezes o volume aplicado pela China no mesmo período. Em 2025, o relatório elevou o número dos Estados Unidos para US$ 285,9 bilhões, mais de 23 vezes o investimento privado chinês identificado.
A China respondeu com planos estatais de grande escala. Em junho de 2026, a Reuters noticiou que Pequim prepara um programa de aproximadamente US$ 295 bilhões, ao longo de cinco anos, para construir uma rede nacional de data centers voltada à inteligência artificial.
📰 Fonte: revistaforum.com.br
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