Brasil rebaixa relação diplomática com Argentina após Milei chamar Lula de “presidiário”

Brasil rebaixa relação diplomática com Argentina após Milei chamar Lula de “presidiário”
Brasil rebaixa relação diplomática com Argentina após Milei chamar Lula de “presidiário”

O Itamaraty comunicou ao embaixador argentino em Brasília que a relação entre os dois países foi rebaixada para o nível de encarregados de negócios, e o embaixador brasileiro não retornará a Buenos Aires

O governo brasileiro decidiu, nesta terça-feira (4), rebaixar a relação diplomática com a Argentina para o nível de encarregados de negócios e manter o embaixador Julio Bitelli em Brasília, sem retorno a Buenos Aires. A decisão foi comunicada diretamente ao embaixador argentino Daniel Raimondi, que recebeu uma nota de protesto do Itamaraty. A medida é uma resposta aos ataques repetidos do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes, proferidos pela primeira vez em 26 de julho, durante evento do Partido Liberal em São Paulo, e reiterados nas semanas seguintes.

O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, nesta terça-feira (4), e comunicou formalmente o rebaixamento da relação bilateral para o nível de encarregados de negócios. Raimondi recebeu uma nota de protesto. O embaixador brasileiro, Julio Bitelli, que havia sido chamado para consultas em 26 de julho, não retornará a Buenos Aires enquanto os insultos do presidente Javier Milei persistirem. A embaixada brasileira na Argentina passará a ser conduzida pelo ministro-conselheiro Eduardo Uziel.

O rebaixamento para o nível de encarregados de negócios significa que o país retira seu embaixador e passa a tratar os assuntos bilaterais por meio de um diplomata de escalão inferior. É uma sinalização grave de insatisfação, um degrau abaixo da ruptura total das relações. Segundo fontes diplomáticas brasileiras, as falas de Milei demonstram que não há nenhuma disposição de restaurar uma relação correta com o governo brasileiro. A decisão, portanto, não é protocolar: é uma resposta política direta a uma conduta política deliberada.

O estopim da crise foi o discurso de Javier Milei na Convenção Nacional do Partido Liberal, realizada em São Paulo no dia 26 de julho, durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro. No evento, o presidente argentino chamou Lula de “ladrão” e “presidiário” e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes como “lixo careca”, em reação ao fato de Moraes ter vetado uma visita de Milei a Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. No dia seguinte, o Itamaraty chamou Bitelli para consultas, primeiro sinal concreto de que o Brasil não trataria o episódio como ruído passageiro.

O que agravou a situação foi a recusa de Milei em recuar. Nas semanas seguintes, o presidente argentino repetiu e defendeu as ofensas em entrevistas a canais argentinos, transformando o que poderia ter sido um deslize em posição assumida. Seu chanceler, Pablo Quirno, chegou a afirmar publicamente que não havia intenção de ruptura com o Brasil, mas as declarações de Milei seguiram na direção oposta. Para as fontes diplomáticas brasileiras ouvidas pela imprensa, o comportamento reiterado deixou claro que não se tratava de um excesso retórico isolado, mas de uma postura deliberada de confronto com o governo Lula.

Com o rebaixamento formalizado, a Argentina agora precisa decidir o que fará com seu próprio representante em Brasília. Segundo um membro do governo Lula, Raimondi não será expulso nem declarado persona non grata, mas será “desconsiderado”: deixará de ser interlocutor válido para a relação bilateral. É uma distinção sutil, mas politicamente carregada. O governo brasileiro sinaliza que pode conviver com a presença física do embaixador argentino no país, mas não reconhece mais sua função diplomática plena.

A medida é descrita como inédita na história das relações entre Brasil e Argentina e representa a mais grave crise bilateral ao menos das últimas décadas. Os dois países são parceiros comerciais de peso e aliados históricos, com laços que atravessam o Mercosul e diversas áreas de cooperação. A decisão do Itamaraty será mantida enquanto os ataques de Milei continuarem.


📰 Fonte: revistaforum.com.br

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