
Ricardo Ribeiro Ferreira, acadêmico da instituição britânica que estuda postura dos grupos de imprensa corporativa, afirma que abordagem visa equiparar Lula a Flávio Bolsonaro por meio de ilações
A publicação de uma reportagem pela Folha de S.Paulo neste 7 de setembro, focada na localização da moradia de “Lulinha”, apelido inventado pela mídia corporativa para Fábio Luís Lula da Silva, na Espanha, acendeu o debate sobre os limites e os enquadramentos da cobertura política no país. Sem que pesem contra o filho do presidente da República quaisquer sanções judiciais, investigações ativas, denúncias ou condenações, e vivendo de forma absolutamente regular em território europeu, o destaque dado ao seu endereço e à caracterização do condomínio gerou críticas quanto à real utilidade pública da pauta no contexto do ano eleitoral.
Para compreender os mecanismos editoriais e os interesses que norteiam esse tipo de abordagem pela imprensa corporativa, entrevistamos o jornalista e pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira. Mestre em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Coimbra, doutor em Política pela Universidade de Edimburgo e Leverhulme Fellow no Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, o acadêmico estuda o comportamento dos grandes veículos de comunicação no Brasil e desenvolveu o conceito de “práticas jornalísticas desdemocratizantes”.
Na entrevista a seguir, Ferreira analisa a ida do jornal à Espanha como um movimento de falsa equivalência moral entre os candidatos à Presidência da República e detalha como as dinâmicas internas das redações perpetuam viéses institucionais.
Qual é a avaliação que o senhor faz da opção editorial da Folha de S.Paulo ao enviar uma equipe para localizar e expor o endereço de Fábio Luís Lula da Silva na Espanha, considerando que não há qualquer impedimento legal ou investigação formal contra ele?
Ricardo Ribeiro Ferreira — “Qual é o intuito desta matéria senão se somar às ilações vazadas e construir, bem como ampliar, a narrativa, até o momento sem qualquer evidência, de que há alguma irregularidade ligada a Lula? Tudo sob uma falsa posição de imparcialidade e balanço… Ir atrás de Lulinha na Espanha, buscá-lo na Espanha, sem que haja qualquer impedimento judicial ou legal para que ele viva lá, é uma ‘imparcialidade parcial’, um ‘dois-ladismo’ que, na prática, beneficia um lado porque, ao substanciar ilações contra Lula e amplificar determinados enquadramentos e narrativas, coloca o candidato em pé de igualdade, ou até em posição mais precária, com seu adversário, contra quem pesam acusações irregulares amplamente mais graves e com evidências mais robustas, como a investigação das rachadinhas, os imóveis milionários comprados em dinheiro e a ligação muito mais significativa com Vorcaro no caso Master.”
Por que grandes veículos de comunicação tradicionais mantêm uma postura de constante tensionamento com o PT e com o presidente Lula, mesmo em cenários onde há ameaças explícitas ao regime democrático por parte da extrema direita?
Ricardo Ribeiro Ferreira — “Os grandes grupos de comunicação, ditos tradicionais, tendem a privilegiar seus interesses econômicos mais até do que as normas e a segurança democrática; arriscam e flertam com grupos autoritários por conta de uma agenda financeira e, algumas vezes, uma birra até infantil com o PT ou com Lula pessoalmente. Esses jornais são controlados por elites empresariais que estão mais preocupadas com ganhos financeiros do que com normas democráticas. Basta lembrar que apoiaram, em sua maioria, o golpe de 1964. Essas preferências, “o que a casa prefere”, como os jornalistas descrevem, inevitavelmente vão moldar grande parte das práticas nas redações e dos conteúdos que são produzidos. São instruções diretas na hierarquia que, por repetição, se normalizam, e depois também se criam percepções de preferências entre os profissionais; muito disso se propaga no automático, como regra não falada, o que define como algo deve ser reportado ou o que deve ser reportado.”
📰 Fonte: revistaforum.com.br
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