Por 85 anos, um enorme crânio humano permaneceu fora do alcance da ciência, segundo o relato associado à sua descoberta. Quando finalmente chegou aos pesquisadores, ganhou até uma espécie própria, o chamado “Homem Dragão”. Mas a maior surpresa viria em 2025: DNA preservado em uma quantidade minúscula de tártaro dentário ligou o indivíduo à linhagem dos denisovanos.
O crânio de Harbin teria sido encontrado em 1933 durante obras de uma ponte sobre o rio Songhua, no nordeste da China. De acordo com a história de procedência apresentada aos cientistas, o homem que o encontrou decidiu escondê-lo em um poço, mantendo o fóssil longe dos pesquisadores durante décadas.
Somente em 2018 o exemplar chegou ao conhecimento científico. Como a história inicial depende de relatos familiares, pesquisadores tratam alguns detalhes de sua descoberta com cautela. O fóssil em si, porém, era extraordinário: estudos de datação estabeleceram uma idade mínima de 146 mil anos.
Em 2021, Qiang Ji e colaboradores propuseram que o crânio pertencia a uma nova espécie humana, batizada de Homo longi. Outro estudo descreveu uma caixa craniana de aproximadamente 1.420 mililitros, além de uma combinação incomum de características antigas e derivadas.
A classificação despertou debate porque vários especialistas já suspeitavam de uma ligação com os denisovanos. O problema era testar a hipótese: esse grupo havia sido identificado geneticamente em 2010 e continuava conhecido principalmente por restos fragmentários, tornando difícil associar sua genética a um rosto quase completo.
A equipe liderada por Qiaomei Fu conseguiu recuperar DNA mitocondrial de amostras minúsculas de cálculo dentário preservadas no dente do fóssil. O estudo publicado na Cell em 2025 mostrou que esse DNA se encaixava na variação genética dos denisovanos e se relacionava a linhagens antigas conhecidas da Sibéria.
A confirmação não ficou restrita ao tártaro. Em trabalho publicado na Science, Fu e colegas recuperaram 95 proteínas endógenas do crânio e encontraram evidências proteômicas compatíveis com a linhagem denisovana. Dois caminhos moleculares diferentes acabaram convergindo para a mesma interpretação.
Os resultados mudaram profundamente a interpretação do fóssil, mas não encerraram automaticamente toda discussão taxonômica. Denisovanos são definidos principalmente por evidências genéticas, e a maneira de encaixá-los formalmente nas espécies do gênero Homo continua sendo debatida entre paleoantropólogos.
📰 Fonte: catracalivre.com.br
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