Orcas, golfinhos e baleias descendem de mamíferos que viveram em terra há dezenas de milhões de anos, mas um amplo estudo sobre a evolução dos mamíferos indica que esse caminho não funciona da mesma maneira no sentido contrário. Depois que um linhagem se torna fortemente dependente da água, certas mudanças anatômicas e fisiológicas se acumulam a ponto de tornar uma volta à vida terrestre extremamente improvável em escala evolutiva. É esse limite que pesquisadores descrevem como um “ponto de não retorno”.
O trabalho que sustenta essa ideia foi publicado em 2023 no periódico Proceedings of the Royal Society B por Bruna Farina, Søren Faurby e Daniele Silvestro. Os pesquisadores usaram métodos filogenéticos comparativos para analisar diferentes níveis de adaptação à água em milhares de mamíferos atuais.
Os animais foram separados em categorias que iam desde espécies totalmente terrestres até mamíferos completamente aquáticos. Entre esses extremos estavam grupos semi-aquáticos, capazes de usar água e terra em diferentes proporções.
Segundo os modelos, formas de vida apenas parcialmente aquáticas ainda podem, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra. O quadro muda quando surgem adaptações que reduzem fortemente a mobilidade terrestre.
Os pesquisadores identificaram um limiar depois do qual as transições em direção a um estilo de vida mais terrestre praticamente desaparecem no histórico evolutivo analisado. Cetáceos, como golfinhos e orcas, estão muito além desse ponto porque dependem totalmente da água para locomoção, alimentação e reprodução.
O problema não está em uma única característica. Ao longo de milhões de anos, cetáceos acumularam várias adaptações interligadas:
Reverter todo esse conjunto exigiria recuperar estruturas complexas que foram reduzidas ou perdidas. Os autores relacionam esse padrão à chamada Lei de Dollo, segundo a qual mudanças evolutivas complexas perdidas tendem a ser praticamente irreversíveis.
Não. O estudo não afirma que exista uma força direcionando os cetáceos para permanecer no oceano, nem que uma reversão seja matematicamente impossível. Em evolução, “irreversível” normalmente significa que a probabilidade observada é tão baixa que nenhuma reversão comparável apareceu nos modelos e na história dos grupos analisados.
📰 Fonte: catracalivre.com.br
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