Civilização x Barbárie

Civilização x Barbárie
Civilização x Barbárie

Quando uma multidão decide quem deve viver, quem deve apanhar e quem merece ser punido, não estamos diante de justiça, estamos diante da barbárie

O linchamento de um entregador no Rio de Janeiro nos causa indignação, revolta e profundo pesar. Não há justificativa possível para uma violência coletiva praticada contra um ser humano. Não há “justiça” em espancar, humilhar ou tentar eliminar alguém pelas próprias mãos. Quando uma multidão decide quem deve viver, quem deve apanhar e quem merece ser punido, não estamos diante de justiça, estamos diante da barbárie.

É assustador perceber como a violência gratuita vem sendo naturalizada. Mulheres, crianças, idosos, pessoas negras, homossexuais, pessoas com deficiência e tantos outros grupos são diariamente transformados em alvos de agressões, humilhações e ódio. Há também uma violência exercida por aqueles que, em situações cotidianas, encontram uma oportunidade de demonstrar um pequeno poder, o poder de constranger, intimidar, ameaçar, perseguir ou agredir quem consideram mais vulnerável.

É igualmente perigosa a ideia de que qualquer cidadão pode se transformar em juiz e executor. A justiça pelas próprias mãos não é justiça. É a negação do Estado Democrático de Direito e a substituição das regras da convivência social pela lei do mais forte. Quando aceitamos que alguém seja espancado porque “merecia”, abrimos uma porta que amanhã poderá atingir qualquer um de nós.

Há ainda um elemento que deveria nos provocar uma reflexão ainda mais profunda: as câmeras estão registrando a barbárie da sociedade. No episódio da criança jogada do prédio, no caso da mulher brutalmente espancada pelo marido poderoso e agora no linchamento do entregador pelos supostos justiceiros, imagens registraram a violência. São cenas que não deixam espaço para versões convenientes, para a negação dos fatos ou para a transformação dos agressores em heróis. As câmeras revelam aquilo que muitas vezes preferimos não enxergar, a violência acontece diante de nós, em espaços públicos e privados, enquanto pessoas assistem, filmam, compartilham e, algumas vezes, permanecem indiferentes. O celular que poderia servir para pedir socorro acaba, não raramente, transformando o sofrimento humano em espetáculo.

Mas existe algo ainda mais doloroso, a passividade de parte da sociedade diante dessa escalada. O silêncio, a omissão e a relativização também alimentam a violência. É assustador ouvir pessoas justificando agressões, procurando culpar a vítima ou afirmando que determinadas pessoas “pediram” para ser violentadas. Nenhuma circunstância transforma uma vítima em responsável pela violência que sofreu. Não existe “mas” depois de uma agressão. Não existe contexto que transforme a violência em virtude.

Precisamos também reconhecer que parte dessa brutalidade nasce nas telas e transborda para a vida real. O discurso de ódio, a desumanização do outro, as ameaças, as campanhas de humilhação e a celebração da violência disseminadas nas redes sociais não permanecem confinados ao ambiente virtual. Palavras repetidas milhares de vezes podem preparar consciências para atos concretos. Quando a violência vira entretenimento, meme, espetáculo ou instrumento de disputa, a sociedade vai perdendo, pouco a pouco, a capacidade de se indignar. O que começa como uma agressão verbal na tela pode terminar em uma agressão física nas ruas.

O enfrentamento dessa realidade exige muito mais do que condenações depois que a tragédia acontece. Exige educação para os direitos humanos, responsabilização de agressores, fortalecimento das instituições e, sobretudo, uma mudança de atitude da sociedade. Precisamos interromper a cultura da omissão e deixar claro que não existe violência aceitável contra ninguém. Defender direitos humanos significa defender a dignidade de todas as pessoas.


📰 Fonte: revistaforum.com.br

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