
O filósofo Denis Rosenfield é um crítico duro da atual polarização e dos dois campos responsáveis por esse cenário. Para superá-la, como explicou em entrevista à CNN Brasil, ele considera necessário o surgimento de uma nova direita que marque diferença em relação às quase duas décadas de gestões petistas e também que rompa com as ideias da família Bolsonaro e conceda anistia ao ex-presidente.
"Eu acho que, no fundo, o que a família Bolsonaro quer é tirar o pai da prisão - da prisão domiciliar agora. O que eles querem agora, precisamente, é a anistia", pontua Rosenfield.
A ideia seria criar uma chapa unificada para disputar as eleições presidenciais que apresentasse novos projetos. Ele usa como exemplo uma junção entre os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) com Renan Santos (Missão) e o ex-presidente Michel Temer, segundo ele "uma figura que congrega e daria esse sentido de unidade no país".
Na avaliação de Rosenfield, a chapa unificada se tornaria competitiva para disputar com a gestão petista, que ele diz passar por uma crise fiscal e um processo de estagnação do país.
CNN: No artigo "Por uma nova direita", o senhor afirma que é urgente o surgimento de uma direita "com contornos claros e isenta dos problemas que têm surgido em sua encarnação pela família Bolsonaro". Na prática, como seria essa nova direita? Quais características programáticas, institucionais e de liderança ela deveria reunir?
Denis Rosenfield: Eu primeiro gostaria de caracterizar o seguinte: essa ideia de uma nova direita procura precisamente sair das contraposições da polarização na qual o país está imerso hoje, entre o bolsonarismo de um lado e o lulopetismo de outro. Eu acho que são dois modelos já completamente esgotados. Quer dizer, você pega o governo Lula... Nós temos 18 anos de governo petista e eles dizem que sempre a culpa é dos outros. Eu não consigo entender como é que a culpa pode ser dos outros, se estão há 18 anos no poder. Quer dizer, a culpa de tudo que não dá certo é deles mesmos, né?
Então, o Brasil está numa crise fiscal grande, a inflação tem problema de ser contida, investimentos com juros altos se tornam praticamente inviável. Então o Brasil está entrando num processo de estagnação. E nem por isso o governo deixa de gastar e deixa de fazer tudo para se reeleger.
Por outro lado, nós temos a direita bolsonarista, que a única coisa que consegue afirmar é o suposto legado do presidente Bolsonaro. Eu digo um suposto legado porque tem comprometimento com a democracia, os princípios liberais foram afirmados com o ministro (da Economia, Paulo) Guedes, mas também com muitas dificuldades. Não foi levado adiante nenhum processo sério de privatização, como tinha sido mencionado, assinalado e mesmo prometido e, ao mesmo tempo, nós tivemos agora, com a candidatura Flávio Bolsonaro, um processo completamente diferente que nem me parece que seria uma coisa própria da direita no sentido conservador e liberal, nós voltaremos a isso, que é o seguinte: o princípio deles é o princípio do clã, é o princípio da tribo, é o princípio da família.
📰 Fonte: cnnbrasil.com.br
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