Uma caverna no norte da Espanha preservou por cerca de 850 mil anos sinais de um comportamento difícil de interpretar: antigos parentes humanos processavam corpos de adultos e crianças de modo semelhante ao usado em animais. Novos fósseis de Homo antecessor mostram que o canibalismo em Gran Dolina era mais amplo do que as descobertas anteriores sugeriam.
As escavações em Gran Dolina, no complexo arqueológico de Atapuerca, revelaram cerca de duas dezenas de novos ossos e dentes humanos. O material inclui fragmentos do crânio, da coluna, dos braços e das pernas, além da primeira ulna de um adulto de Homo antecessor identificada nessa área da caverna.
Vários fragmentos apresentam marcas produzidas por ferramentas de pedra. Segundo a equipe do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social, o IPHES-CERCA, algumas dessas alterações são compatíveis com a retirada de tecidos e o processamento dos corpos, reforçando evidências acumuladas durante décadas de pesquisa no local.
As descobertas anteriores eram formadas principalmente por restos de bebês, crianças e jovens. Um estudo publicado em 2012 pela antropóloga Palmira Saladié e seus colegas levantou a hipótese de que integrantes mais novos de grupos rivais poderiam ter sido escolhidos porque ofereciam menos risco durante confrontos.
Os novos fósseis alteram essa interpretação. Alguns ossos adultos também possuem marcas de corte, mostrando que a prática não se limitava aos indivíduos mais vulneráveis. Com as escavações recentes, o número mínimo de pessoas reconhecidas em Gran Dolina chegou a 13, sendo aproximadamente metade delas adulta.
Os pesquisadores não chegaram à conclusão apenas pela presença de cortes. Estudos realizados desde a década de 1990 compararam ossos humanos, restos de animais e ferramentas encontrados na mesma camada arqueológica, conhecida como TD6. As semelhanças observadas formam um conjunto consistente de evidências:
Um estudo publicado em 2010 na revista Current Anthropology concluiu que os episódios aconteceram repetidamente, e não apenas durante uma crise isolada. Outra pesquisa, divulgada no Journal of Human Evolution, sugeriu que os corpos humanos foram tratados como um recurso alimentar, embora o motivo social permaneça em debate.
O Homo antecessor foi uma espécie humana arcaica que viveu na Europa durante o Pleistoceno Inferior. Os fósseis de Gran Dolina foram datados entre aproximadamente 772 mil e 949 mil anos. A espécie recebeu seu nome científico em 1997 e apresenta uma combinação de características antigas e traços que lembram humanos posteriores.
📰 Fonte: catracalivre.com.br
Clique em "Comentar" acima para carregar os comentários.