À primeira vista, são apenas pequenos pedaços quebrados de casca de ovo. Mas 112 fragmentos encontrados no sul da África preservam linhas, ângulos e figuras gravadas por Homo sapiens há cerca de 60 mil anos. Uma análise publicada em 2026 descobriu que essas marcas não foram feitas ao acaso: elas seguem regras visuais recorrentes que revelam uma surpreendente capacidade de planejamento geométrico.
O estudo publicado na revista PLOS ONE analisou imagens de 112 fragmentos gravados provenientes de Diepkloof e Klipdrift, na África do Sul, e Apollo 11, na Namíbia. Os objetos pertencem ao contexto arqueológico de Howiesons Poort, da Idade da Pedra Média africana, aproximadamente entre 65 mil e 60 mil anos atrás.
Os pesquisadores reconstruíram digitalmente cada traço e mediram propriedades como direção, paralelismo e ângulos de interseção. Segundo Valentina Decembrini, Silvia Ferrara e os demais autores, os resultados mostram uma organização formal consistente, indicando que os antigos gravadores combinavam elementos simples segundo princípios repetidos em vez de produzir apenas riscos improvisados.
As gravuras incluem conjuntos de linhas paralelas, cruzamentos próximos de ângulos retos, faixas hachuradas, grades e formas semelhantes a diamantes. A análise estatística mostrou que características ligadas à ortogonalidade, ao alinhamento e à regularidade espacial aparecem em mais de 80% do conjunto estudado.
O mais intrigante está na maneira como esses elementos foram combinados. Os autores identificaram operações de repetição, rotação, deslocamento e encaixe de estruturas dentro de outras. Para a equipe, isso aponta para uma espécie de “gramática geométrica”, expressão usada para descrever regras de organização visual e não uma linguagem escrita propriamente dita.
As cascas provavelmente faziam parte de recipientes usados para armazenar ou transportar água, uma utilização conhecida no registro arqueológico africano desde a Idade da Pedra Média. Isso torna as gravuras ainda mais interessantes, porque os padrões não estavam necessariamente separados da vida cotidiana, mas podiam acompanhar objetos utilizados por essas comunidades.
Estudos anteriores sobre Diepkloof já haviam identificado uma tradição de gravação em recipientes de casca de ovo de avestruz com aproximadamente 60 mil anos. A nova pesquisa avança ao aplicar métodos geométricos e estatísticos para investigar não apenas quais desenhos aparecem, mas como a mente de seus criadores organizava cada composição.
Os pesquisadores não afirmam que as marcas constituíam escrita e também não sabem exatamente o que cada motivo significava para seus autores. O estudo concentra-se na estrutura visual das gravuras. Por isso, chamar o conjunto de “código” funciona apenas como uma comparação: não existe evidência suficiente para traduzir os desenhos como palavras ou mensagens específicas.
📰 Fonte: catracalivre.com.br
Clique em "Comentar" acima para carregar os comentários.