
Estamento, Trump e o novo fascismo disputam a soberania nas eleições de 2026
Escute o ritmo que se acelera. Acomode o som enquanto os olhos percorrem a engrenagem do país. Deixe a música anunciar o fim dos dias sufocantes antes mesmo de entender como eles se sustentam…
Que a leitura não seja um peso ou um feed aleatório… que tal uma preparação para a corrida?!
No encerramento da sessão do STF de 15 de setembro — uma sessão de procedimentos, não um julgamento de mérito —, transmitida ao vivo pela TV Justiça, o ministro Flávio Dino resumiu o problema: “a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda”. Discutia-se reunir ou separar os casos de Alexandre de Moraes e André Mendonça — uma questão de procedimento, sem decisão sobre o mérito. Mas a frase já anuncia algo maior: a sociedade assiste, enquanto seu destino é tratado como posse de quem o administra.
É essa lógica que a filósofa alemã Eva von Redecker examina em seu livro mais recente, Dieser Drang nach Härte. Über den neuen Faschismus — em tradução livre, “Esse impulso à dureza. Sobre o novo fascismo”. Sua análise da “propriedade fantasma” descreve a pretensão de possuir a nação e tratar toda contestação como usurpação: o domínio pode ser real, mas fantasmático é o direito absoluto de propriedade sobre o país e sobre os outros. É essa pretensão que a cena do dia 15 de setembro deixa entrever.
Essa distância tem preço. Instituições pouco acessíveis aos cidadãos permanecem abertas a interesses capazes de negociar diretamente com seus dirigentes. Na ordem tarifária de julho de 2025, Trump vinculou medidas econômicas contra o Brasil ao processo de Bolsonaro, às plataformas digitais e à eleição de 2026; em 10 de setembro, a Folha informou que Washington avaliava novas sanções diante da crise do STF, calculando seus efeitos eleitorais. A vulnerabilidade institucional brasileira entrou no cálculo de outro governo.
A sucessão de escândalos, desde o Mensalão, obriga a perguntar quanto ainda existe de excepcional nessa rotina. Em “Os donos do poder”, Raymundo Faoro descreve o estamento burocrático: um grupo que se apropria da condução do Estado, distribui vantagens e preserva sua posição através das mudanças de governo. O noticiário narra pessoas — ministros, autoridades — e menciona menos as instituições que elas representam; fala-se em alas, como em escola de samba, no lugar de câmara ou tribunal. Mesmo organizações criminosas mantêm códigos internos que restringem seus membros; o estamento, protegido pela legalidade que maneja, pode dispensar até essa contenção. É a mesma propriedade fantasma, aplicada à administração do Estado: o domínio é real, mas veste-se de posse absoluta.
Às vésperas das eleições, essa complexidade reaparece comprimida em polarização rudimentar: contratos e vínculos financeiros viram provas instantâneas da virtude de um campo e da perversidade do outro, enquanto desaparecem as perguntas sobre quem decidiu, quem se beneficiou e quais controles falharam. O filibuster — a obstrução parlamentar pela fala — oferece uma metáfora para esse desgaste. Não por acaso, é o próprio Dino quem recorre, em mais de uma sessão, a autores da Grécia antiga para qualificar o presente, como ao evocar Aristóteles e a Ágora, em maio de 2025, diante de uma democracia que os antigos não reconheceriam. O risco está em normalizar uma vida pública na qual explicações se multiplicam enquanto o esclarecimento é continuamente adiado.
📰 Fonte: revistaforum.com.br
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