O provérbio africano “Uma pessoa é pessoa por meio das outras pessoas” corresponde à conhecida expressão nguni “Umuntu ngumuntu ngabantu”, associada ao conceito de ubuntu na África Austral. A frase parte de uma ideia simples: ninguém constrói sozinho sua humanidade, identidade e dignidade. Somos formados pelas relações de cuidado, reconhecimento, pertencimento e responsabilidade que mantemos com outras pessoas.
A tradução mais recorrente é “uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”. A expressão aparece em línguas nguni, como o isiZulu, e coloca a interdependência no centro da ideia de ser humano. Em vez de enxergar a pessoa como uma existência completamente separada da comunidade, ela enfatiza que identidade, dignidade e vida social são construídas nas relações.
Isso não significa que o indivíduo desapareça diante do grupo. O princípio aponta para uma humanidade relacional: a pessoa continua tendo sua própria existência, mas aprende, cresce e exerce sua humanidade convivendo com outras. Alguns valores frequentemente relacionados ao ubuntu ajudam a entender essa leitura.
Ubuntu é um conceito tradicional da África Austral frequentemente resumido justamente por “Umuntu ngumuntu ngabantu”. Embora nenhuma tradução curta consiga abarcar todos os seus sentidos, a palavra costuma estar relacionada a humanidade, comunhão, cuidado e reconhecimento mútuo. A formulação aparece na literatura acadêmica como uma maneira de explicar que ser plenamente humano envolve relações com outras pessoas.
Desmond Tutu ajudou a tornar o ubuntu conhecido internacionalmente durante o período de reconstrução política da África do Sul após o apartheid. Em 1995, Nelson Mandela o nomeou presidente da Comissão da Verdade e Reconciliação, criada para investigar graves violações de direitos humanos e contribuir para um processo nacional de verdade e reconciliação.
Nesse contexto, Tutu recorria a ideias de dignidade compartilhada, perdão, responsabilidade e convivência. Durante os trabalhos ligados à comissão, ele também defendeu publicamente a construção de uma cultura de ubuntu. A proposta não era simplesmente esquecer crimes do passado, mas reconstruir relações sem negar a humanidade de vítimas, responsáveis e comunidades marcadas pelo apartheid.
A ligação não está em afirmar que o provérbio tenha surgido no Brasil, mas na presença profunda de povos e línguas bantu na formação brasileira. Nguni pertence ao amplo conjunto das línguas bantu, e milhões de africanos trazidos compulsoriamente para o Brasil durante o tráfico atlântico vieram de regiões onde diferentes línguas dessa família eram faladas. Essa presença deixou marcas no vocabulário, na música, nas práticas religiosas e em manifestações culturais brasileiras.
O jongo é um exemplo reconhecido dessa herança: a manifestação preservada no Sudeste brasileiro possui raízes profundas em tradições de povos africanos de língua bantu. Essa conexão histórica ajuda o leitor brasileiro a perceber que ideias, palavras e modos de compreender a vida comunitária vindos de sociedades africanas não são elementos distantes da formação cultural do país.
📰 Fonte: catracalivre.com.br
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