
Entre títulos, cargos e currículos, permanece esquecida a tarefa mais importante da existência: descobrir, desenvolver e compartilhar potencial humano.
O marketing pessoal talvez seja uma das invenções mais reveladoras do nosso tempo. Não porque tenha ensinado profissionais a comunicar melhor o próprio trabalho, mas porque ajudou a deslocar a atenção daquilo que somos para aquilo que conseguimos projetar.
A ascensão dessa lógica não foi apenas uma mudança de linguagem; foi uma mudança de paradigma. Neste ponto começa o inventário das nossas sombras, das nossas tragédias como humanos.
Entre as décadas de 1980 e 1990, nos Estados Unidos, conceitos criados para vender produtos e fortalecer empresas passaram a moldar trajetórias individuais. Livros de gestão, consultorias de carreira e departamentos de recursos humanos consolidaram uma nova exigência: cada indivíduo deveria administrar, gerenciar a si mesmo como uma como uma microempresa individual, uma marca.
O mérito deixou de bastar. Era necessário conquistar visibilidade. A competência, por si só, perdeu força. Precisava ser transformada em narrativa, embalada, promovida e consumida.
À primeira vista, a proposta parecia sensata. Comunicar bem o próprio trabalho é, sem dúvida, uma habilidade valiosa. O problema começou quando a racionalidade mercadológica invadiu territórios mais profundos da existência.
Pessoas passaram a ser avaliadas pelos mesmos parâmetros usados para mensurar produtos. Relações humanas foram reduzidas a networking. Prestígio virou posicionamento. O encontro genuíno cedeu espaço ao cálculo estratégico.
Aos poucos, deixamos de perguntar quem alguém é para perguntar quanto vale sua projeção pública.
📰 Fonte: revistaforum.com.br
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