Quem matou os apelidos?

Quem matou os apelidos?
Quem matou os apelidos?

Das páginas de Dostoiévski às ruas do país, apelidos atravessam culturas porque respondem a uma necessidade humana antiga: tornar o outro mais próximo e reconhecível

Durante boa parte do século XX, quase ninguém atravessava a infância brasileira apenas com o nome recebido no cartório. Havia o apelido inventado pelos irmãos, o diminutivo imposto pela escola, a alcunha nascida de uma façanha, de um tropeço, de uma característica física e capaz de sobreviver por décadas. Em muitas cidades, perguntar por José da Silva era informação insuficiente. Era preciso procurar Zeca do Armazém, Pedrinho da Farmácia, o caminhão de Zé de Ana, Pescoço de Mola ou Pé de Prancha, Camburão, Brinquedo do Cão, Arengueiro. O cartório registrava uma pessoa; a comunidade, com frequência, fabricava outra.

Os apelidos pertencem a uma cultura de proximidade. Exigem convivência, repetição, memória compartilhada. Alguns carregam afeto; outros, uma crueldade que a infância distribui sem cerimônia. Muitos têm uma explicação conhecida apenas por meia dúzia de pessoas.

Um homem pode mudar de cidade, casar, enriquecer, ganhar títulos e cabelos brancos e continuar sendo chamado pelo nome recebido aos onze anos. Há biografias inteiras comprimidas em duas sílabas.

A literatura russa compreendeu essa intimidade como poucas. Primeiro assusta o leitor com sua arquitetura nominal: nome, patronímico, sobrenome, personagens que parecem precisar de passaporte para entrar numa conversa. Logo a solenidade encolhe. Alexei vira Aliôcha; Sofia ou Sofya, Sônia; Avdótia, Dúnia; Ivan, Vânia. Aleksandr ou Aleksandra pode virar Sasha; Pavel, Pasha; Ekaterina, Kátia; Larisa, Lara. Esta última ficou mundialmente conhecida por Pasternak em Doutor Jivago. Na Rússia, uma simples mudança na forma de chamar alguém pode revelar se duas pessoas acabam de ser apresentadas ou se já dividiram metade da vida.

Os franceses também sabem aparar nomes. Jean pode virar Jeannot; Jacques, Jacquot; Sébastien, Bastien; Antoine, Toine. E poucos apelidos viajaram tão longe quanto o de Édith Giovanna Gassion. Louis Leplée a batizou artisticamente de La Môme Piaf: no francês popular de Paris, piaf é pardal. A mulher pequena, de voz monumental, virou o pequeno pardal. O tempo dispensou o resto. Ficou Piaf.

Do outro lado dos Pireneus, espanhóis e hispano-americanos construíram patrimônio parecido. Francisco pode ser Paco, Pancho ou Chico; Manuel, Manolo; José, Pepe; Dolores, Lola; Concepción, Concha. Gabriel García Márquez, dono de um nome que caberia muito bem numa placa de bronze, tornou-se Gabo entre amigos, jornalistas e leitores; entre os mais íntimos, também Gabito. Há uma ironia saborosa nisso: o criador de tantas gerações de Aurelianos e José Arcadios terminou universalmente conhecido por quatro letras.

Nem os papas escapam. Jorge Mario Bergoglio tornou-se Francisco ao assumir o pontificado e, no Brasil, ganhou uma intimidade tipicamente nossa: Papa Chico. Por alguns instantes, o chefe de uma Igreja de dois milênios parecia também aquele parente querido chamado pelo apelido na mesa de casa.


📰 Fonte: revistaforum.com.br

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