
Sigla que abriga o clã Bolsonaro e a maior parte da extrema direita brasileira vive folcloricamente de acusar a esquerda de “roubar”, mas seus escândalos a colocaram no topo da lista da roubalheira
Para compreender o colapso moral que transformou o Partido Liberal (PL) no epicentro das maiores investigações criminais da atualidade, é preciso, antes de tudo, decifrar sua árvore genealógica. O PL não nasceu na esteira do radicalismo ideológico que hoje professa; pelo contrário, suas raízes estão fincadas no mais tradicional fisiologismo do chamado “centrão”. Trata-se de uma legenda cuja moeda de troca sempre foi o pragmatismo do poder e a ocupação de espaços na máquina pública, independentemente das matizes ideológicas do ocupante do Palácio do Planalto.
A alma dessa engrenagem atende pelo nome de Valdemar Costa Neto. O eterno cacique da sigla carrega em seu currículo a marca indelével da Ação Penal 470, o escândalo do Mensalão. No julgamento histórico conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, o comando do partido, que à época operava sob a alcunha de Partido da República (PR) antes de reaver sua nomenclatura original, foi condenado por receber repasses financeiros ilícitos em troca de apoio político sistemático. Valdemar Costa Neto foi sentenciado a 7 anos e 3 meses de reclusão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Cumpriu pena em regime fechado, experimentou o cárcere e, anos mais tarde, foi beneficiado por um indulto natalino.
A grande mutação estrutural da sigla ocorreu a partir do final de 2021. Em um movimento estritamente pragmático, o PL abriu suas portas para abrigar o núcleo duro do bolsonarismo e a bancada da extrema direita. Sob o pretexto de construir uma trincheira em defesa do “conservadorismo, da família e da pátria”, a sigla inchou de forma inédita, elegendo a maior bancada do Congresso Nacional.
Essa fusão produziu um fenômeno singular na crônica política brasileira: o casamento entre o histórico de malfeitos do velho fisiologismo e o modus operandi de uma ala política que, de maneira folclórica, à base de clichês e acusações falsas, vive de apontar o dedo para a esquerda, acusando-a de “roubar” o tempo todo. Discursando como baluartes de uma suposta moralidade puritana, os novos expoentes do PL passaram a ocupar as manchetes policiais não por debates ideológicos, mas por um volume avassalador de inquéritos que vão do desvio primário de verbas de gabinete ao financiamento de intentonas golpistas, passando por fraudes bilionárias no sistema financeiro. O verniz moralista ruiu, revelando que a nova “casa” do bolsonarismo se transformou na maior incubadora de escândalos de corrupção do país.
O episódio que melhor ilustra a promiscuidade entre o grande capital financeiro fraudulento e a cúpula da extrema direita é o chamado “caso do Banco Master”. O escândalo estourou após a Polícia Federal expor uma teia de fraudes bilionárias e operações irregulares no referido banco, culminando na decretação de sua liquidação judicial pelo Banco Central. Muito além de uma quebra financeira, a investigação revelou como a estrutura do banco foi instrumentalizada para abastecer financeiramente o núcleo familiar do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os relatórios da PF trouxeram à luz um vasto material probatório composto por áudios, mensagens de WhatsApp e comprovantes bancários que atingiram em cheio o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Os dados revelaram que o parlamentar atuou diretamente como intermediário junto ao banqueiro Daniel Vorcaro para garantir o aporte de recursos destinados à suposta produção de um filme biográfico de exaltação a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O montante negociado foi de R$ 134 milhões e o efetivamente repassado por Vorcaro para a produção atingiu a impressionante cifra de R$ 61 milhões. As mensagens interceptadas pela Polícia Federal desnudaram uma agressiva pressão por pagamentos e uma proximidade íntima entre o senador da República e o banqueiro sob investigação. Em uma das comunicações, enviada na véspera de uma das fases ostensivas que levou Vorcaro à prisão, Flávio escreveu de próprio punho: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
📰 Fonte: revistaforum.com.br