
Juan Pablo Segura, republicano sem carreira diplomática e com histórico de ataques ao Judiciário brasileiro, assume o posto que define a política dos EUA para a região
O governo Donald Trump anunciou nesta segunda-feira (17) a nomeação de Juan Pablo Segura como secretário-assistente de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, cargo que concentra as relações dos EUA com o Brasil e os demais países da América Latina. Segura, empresário republicano de ascendência argentina, tomou posse em 14 de agosto, substituindo o embaixador Michael Kozak, que ocupava a função interinamente desde janeiro. A troca acontece em meio a uma escalada de atritos diplomáticos entre os governos Trump e Lula, que inclui revogação de vistos, impasse sobre embaixadores e acusações mútuas de interferência política.
A indicação de Segura por Trump ocorreu em abril, e seu nome passou por audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado em junho. A confirmação pelo plenário do Senado veio neste mês, junto com outros 74 nomeados do governo Trump. Antes dele, o cargo era ocupado interinamente pelo embaixador Michael Kozak, diplomata de carreira com mais de 50 anos de serviço, que conduziu a gestão da crise bilateral nos últimos meses, incluindo a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington.
O perfil de Segura contrasta com o de seu antecessor. Antes de entrar para o serviço público, ele fundou a empresa de tecnologia Babyscripts em 2014 e atuou como secretário de Comércio e Desenvolvimento Econômico da Virgínia durante a gestão do governador republicano Glenn Youngkin. É contador público certificado, formado pela Universidade de Notre Dame, e acumulou premiações ligadas ao empreendedorismo na região de Washington. Não há, em seu currículo, passagem por diplomacia ou política externa antes desta nomeação.
Em fevereiro de 2025, meses antes de assumir o cargo, Segura já havia dado uma amostra de como enxerga o Brasil. Dias após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), multar o X por descumprimento de ordem judicial, ele publicou nas redes sociais: “Bloquear o acesso a informações e aplicar multas a empresas sediadas nos EUA por se recusarem a censurar pessoas que vivem nos Estados Unidos é incompatível com valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão.” A publicação foi comentada com emojis de apoio por Elon Musk, dono do X.
Ao tomar posse, Segura usou as redes sociais para definir sua agenda: “Junto com nossa excepcional equipe, impulsionaremos a visão do presidente Trump para que nossa região esteja a salvo dos cartéis e dos narcoterroristas, se gere prosperidade para os americanos e nossos associados e se assegurem nossas fronteiras.” No Senado, durante a audiência de confirmação, ele chamou a política de Trump para a América Latina de “ambiciosa”, citou a Doutrina Monroe como referência, apoiou o envolvimento militar dos EUA no combate ao narcotráfico e criticou o que chamou de “infiltração” da China na região. A retórica é a mesma que embasou, recentemente, a autorização da Colômbia para operações militares norte-americanas em seu território, no âmbito do chamado “Escudo das Américas”.
“Junto com nossa excepcional equipe, impulsionaremos a visão do presidente Trump para que nossa região esteja a salvo dos cartéis e dos narcoterroristas, se gere prosperidade para os americanos e nossos associados e se assegurem nossas fronteiras.”
A nomeação de Segura chega em um momento que o próprio governo brasileiro descreveu como de “escalada deliberada de medidas hostis”. Em 4 de agosto, os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, alegando demora do Brasil em conceder o aval diplomático para a nomeação de Daniel Perez como embaixador norte-americano em Brasília. A indicação de Perez gerou mal-estar no governo brasileiro porque o anúncio foi feito antes da consulta reservada às autoridades brasileiras: o pedido formal de aval chegou ao Itamaraty mais de duas semanas após a Casa Branca tornar pública a indicação, invertendo o protocolo diplomático tradicional.
📰 Fonte: revistaforum.com.br
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