Virada no Peru: Sánchez supera Fujimori voto a voto, mas resultado final segue em aberto

Virada no Peru: Sánchez supera Fujimori voto a voto, mas resultado final segue em aberto
Virada no Peru: Sánchez supera Fujimori voto a voto, mas resultado final segue em aberto

Com cerca de 96% dos votos apurados, o candidato de esquerda Roberto Sánchez assumiu a liderança sobre Keiko Fujimori por margem mínima

O candidato de esquerda Roberto Sánchez ultrapassou a direitista Keiko Fujimori na contagem de votos do segundo turno presidencial do Peru, após mais de 20 horas de apuração, com cerca de 96% das atas apuradas na madrugada desta terça-feira (9).

A virada ocorreu impulsionada pelo fluxo constante de votos das zonas rurais dos Andes e da Amazônia, onde Sánchez concentra sua base eleitoral. A diferença entre os dois é de aproximadamente 38 mil a 41 mil votos, configurando um empate técnico que ainda pode ser revertido pela contagem dos votos do exterior e pela revisão das cédulas impugnadas. Ambos os candidatos pediram calma e prometeram respeitar o resultado final.

Após mais de 20 horas de apuração, Roberto Sánchez, que se define como candidato da “esquerda provinciana”, ultrapassou Keiko Fujimori pela primeira vez desde o fechamento das urnas. Com cerca de 96% do voto escrutinado, Sánchez registrava 50,117% dos votos contra 49,883% de Fujimori, o que representa uma vantagem de aproximadamente 41.355 votos, segundo dados da Oficina Nacional de Procesos Electorales (ONPE). Em outro momento da apuração, com 95,38% das atas computadas, a diferença era de 38 mil votos. Os números variam conforme a atualização do escrutínio, mas a margem permanece ínfima.

A virada tem uma explicação geográfica precisa. Os últimos votos a chegar ao sistema eleitoral provêm das zonas rurais mais remotas dos Andes e da Amazônia, regiões onde as atas demoram mais para ser transportadas e processadas, e onde Sánchez obtém resultados expressivos. Em Lima, ao contrário, Fujimori beirava 63% dos votos com 96,8% das atas da capital já computadas. Essa divisão geográfica do eleitorado é o motor da virada, mas também é o que mantém o resultado em aberto: a proclamação oficial pode demorar dias ou até quase um mês, segundo alertou o presidente do Jurado Nacional de Elecciones, em razão dos recursos de nulidade previstos na legislação eleitoral peruana.

Dois fatores concretos ainda podem alterar o desfecho da eleição. O primeiro são as mais de 1.500 atas impugnadas que precisam ser revisadas antes de ser incorporadas ao cômputo final. Segundo o órgão eleitoral, essas atas se concentram em Lima e Callao, redutos tradicionais do fujimorismo, o que torna sua revisão especialmente sensível para o resultado. O segundo fator é o voto do exterior: das 2.506 mesas instaladas em 73 países, apenas 8% havia sido contabilizado até o momento das últimas atualizações, e a Chancelaria peruana informou que as atas do exterior só concluiriam sua chegada ao país na quarta-feira seguinte à eleição. Historicamente, o voto dos peruanos no exterior favorece o fujimorismo, o que pode reduzir a margem de Sánchez ou até inverter a liderança.

O padrão que se observa agora é quase idêntico ao de 2021. Naquele pleito, Keiko Fujimori também liderou as primeiras horas da apuração, sustentada pelos votos de Lima e da costa, mas perdeu a dianteira com a chegada gradual das atas andinas. Pedro Castillo, antecessor político de Sánchez e hoje preso após uma tentativa fracassada de autogolpe em 2022, venceu aquela eleição com 50,13% dos votos válidos, diferença de pouco mais de 44 mil votos em um universo de mais de 17 milhões de votos válidos. A repetição do cenário não é coincidência: reflete uma divisão estrutural do eleitorado peruano entre o interior rural e indígena, que tende a votar em candidatos de esquerda, e a capital e a costa, onde o conservadorismo e o fujimorismo têm base consolidada.

Ainda durante a apuração, os dois candidatos foram a público pedir contenção. Sánchez declarou estar “confiante e otimista”, mas insistiu que era necessário aguardar o escrutínio completo. Fez, nas suas palavras, “um chamado categórico a todos os agentes políticos a respeitar o resultado seja qual for, porque o Peru precisa de estabilidade”. Fujimori também pediu “tranquilidade e serenidade” aos seus apoiadores e afirmou que respeitará os resultados “sejam os que forem”, reconhecendo que o pleito revela “uma grande divisão dos peruanos”. Os dois discursos têm peso político relevante num país onde, em 2021, a contestação dos resultados por parte do fujimorismo se arrastou por semanas e incluiu tentativas de anular mais de 200 mil votos de comunidades rurais e indígenas.


📰 Fonte: revistaforum.com.br

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